Rose's profileO que se colhe , é o que...PhotosBlogListsMore Tools Help

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    6/30/2009

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    A solidão amiga


    A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

    Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

    Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

    Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

    Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

    “Por muito tempo achei que a ausência é falta.
    E lastimava, ignorante, a falta.
    Hoje não a lastimo.
    Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
    E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
    que rio e danço e invento exclamações alegres,
    porque a ausência, essa ausência assimilada,
    ninguém a rouba mais de mim.!“

    Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

    “Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

    Ali as palavras e os tempos
    poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“

    E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“

    Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

    E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

    “...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília...“

    Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

    O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

    A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

    Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

    (Correio Popular, 30/06/2002)
    6/10/2009

    12 chegando

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    Quem namora agrada a Deus.

    Namorar é a forma bonita de viver um amor.

    Não namora quem cobra nem quem desconfia.

    Namora, quem lê nos olhos e sente no

    coração as vontades saborosas do outro.

    Namora, quem se embeleza em estado de amor.

    Namora, quem suspira, quem não sabe

    esperar mas espera, quem se sacode de taquicardia e timidez diante da paixão.

    Namora, quem ri por bobagem,

    quem sente frios e calores nas horas

    menos recomendáveis.

    Não namora quem ofende,

    quem transforma a relação num inferno,

    ainda que por amor.

    Amor às vezes entorta, sabia?

    E quando acontece, o feito pra bom faz-se ruim.

    Não namora quem só fala em si e deseja

    o parceiro apenas para a glória do próprio eu.

    Não namora quem busca a compreensão

    para a sua parte ruim.

    O invejoso não namora. Tampouco o violento!

    Namorados que se prezam têm a sua música.

    E não temem se derreter quando ela toca.

    Ou, se o namoro acabou, nunca 
    mais dela se esquecem.

    Namorados que se prezam gostam de beijo,

    suspiro, morderem o mesmo pastel, dividir

    a empada, beber no mesmo copo.

    Apreciam ternurinhas que matam

    de vergonha fora do namoro

    ou lhes parecem ridículas nos outros.

    Por falar em beijo, só namora quem

    beija de mil maneiras e sabe cada pedaço

    e gostinho da boca amada.

    Beijo de roçar, beijo fundo, inteirão,

    os molhados, os de língua, beijo na testa,

    no seio, na penugem,

    beijo livre como o pensamento,

    beijo na hora certa e no lugar desejado.

    Sem medo nem preconceito.

    Beijo na face, na nuca e aquele especial atrás

    da orelha, no lugar que só ele ou ela conhece.

    Namora, quem começa a ver

    muito mais no mesmo que sempre viu

    e jamais reparou.

    Flores, árvores, a santidade, o perdão,

    Deus tudo fica mais fácil para quem

    de verdade sabe o que é namorar.

    Por isso só namora

    quem se descobre dono de um lindo amor.

    Só namora quem não precisa explicar.

     

    quem já começa a falar pelo fim,

    quem consegue manifestar com

    clareza e facilidade tudo o que

    fora do namoro é complicado.

    Namora, quem diz:

    "Precisamos muito conversar";

    e quem é capaz de perder tempo,

    muito tempo,com a mais útil das

    inutilidades e pensar no ser amado,

    degustar cada momento vivido

    e recordar palavras, fotos e carícias

    com uma vontade doida de estourar o tempo

    e embebedar-se de flores astrais.

    Namora, quem fala da infância

    e da fazenda das férias,

    quem aguarda com aflição o telefone tocar

    e dá um salto para atendê-lo

    antes mesmo do primeiro "trim".

    Namora, quem namora, quem à toa chora,

    quem rememora,

    quem comemora datas que o outro esqueceu.

    Namora, quem é bom, quem gosta da vida,

    de nuvem, de rio gelado e parque de diversões.

    Namora, quem sonha, quem teima,

    quem vive morrendo de amor

    e quem morre vivendo de amar.


    Arthur da Távola

    6/8/2009

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    Categoria  - Felicidades
    6/4/2009

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    ARRISCAR É VIVER

    Rir é arriscar-se a parecer louco

    Chorar é arriscar-se a parecer sentimental

    Estender a mão para o outro é arriscar-se a se envolver

    Expor seus sentimentos é arriscar-se a expor seu eu verdadeiro

    Amar é arriscar-se a não ser amado

    Expor suas idéias e sonho em público é arriscar-se a perder

    Viver é arriscar-se a morrer...

    Ter esperança é arriscar-se a sofrer decepção

    Tentar é arriscar-se a falhar

    Mas... é preciso correr riscos porque o maior azar da vida é não arriscar nada...

    Pessoas que não arriscam, que nada fazem, nada são.

    Podem estar evitando o sofrimento e a tristeza

    Mas assim não podem aprender, sentir, crescer, mudar, amar, viver...

    Acorrentados às suas atitudes, são escravos;

    Abrem mão de sua liberdade.

    Só a pessoa que se arrisca é livre

    "Arriscar-se é perder o pé por algum tempo

    Não arriscar é perder a vida..."

    (Soren Kiekegaard)
    6/3/2009

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    Mundo da Nara
    (...)
    E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
    Que seja a minha noite uma alvorada,
    Que me saiba perder... pra me encontrar...
     
     
    Florbela Espanca
     
     
     
    Mundo da Nara

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